Turismo adaptado: conheça os cadeirantes viajantes

Um tema muito importante – porém, pouco abordado no nosso cotidiano – é o turismo adaptado para cadeirantes. Por isso, e como forma de mostrar que todos nós podemos viajar mais e melhor, entrevistamos duas personalidades que são muito engajadas nessa causa e verdadeiras fontes de inspiração: o Ricardo Shimosakai, autor do blog Turismo Adaptado, e a Laura Martins, do blog A Cadeira Voadora. Ao longo da entrevista, eles contam suas histórias e dão dicas para pessoas com problemas de mobilidade que querem cair na estrada.

O que é turismo acessível para você?

Ricardo Shimosakai: Turismo acessível pode ser entendido como um aquele de que todos podem participar. Deve se tomar cuidado para não confundir segmentação com exclusão, integração ou segregação.

Laura Martins: Turismo acessível é aquele que possibilita, a todas as pessoas, o acesso ao transporte, aos equipamentos de lazer e à infraestrutura, tudo isso em condições de autonomia e segurança. Por exemplo: tal como as pessoas que não têm deficiência, um cadeirante precisa ter acesso a ônibus ou a banheiro, e não apenas aos equipamentos propriamente ditos (um museu ou um parque).

Um museu precisa proporcionar entrada sem obstáculos e acesso aos diversos pisos, mas também é necessário acesso ao restaurante e ao banheiro. As necessidades da pessoa são múltiplas. Pode parecer óbvio quando dito dessa forma, mas não é, haja visto que as condições de acessibilidade não têm sido disponibilizadas em grande escala.

Qual foi o destino mais acessível que você já visitou?

Ricardo Shimosakai, autor do blog Turismo Adaptado

Ricardo Shimosakai, autor do blog Turismo Adaptado

Ricardo Shimosakai: Barcelona e Nova Iorque. No Brasil, cito São Paulo, Foz do Iguaçu e Bonito. Porém, tome cuidado, pois esses foram os mais acessíveis para mim, mas será que podem ser igualmente acessível para outra pessoa, com deficiência visual, auditiva, ou mesmo física como eu, que sou cadeirante?

Laura Martins: Nova Iorque, porque os ônibus são acessíveis, assim como algumas estações de metrô. Museus, teatros, monumentos e parques são acessíveis e as calçadas estão em boas condições no Midtown. Apesar disso, ainda tem muito que melhorar, pois são relativamente poucos os hotéis em condições de acessibilidade. Em algumas áreas as calçadas estão quebradas ou não têm rebaixamento (rampinha), e por aí vai.

Qual foi o que deixou mais a desejar?

Ricardo Shimosakai: Para mim, foram Quito, no Equador, e São Luís, no Maranhão. Entretanto, não se pode levar em conta só a acessibilidade. Por exemplo, há destinos muito mais inacessíveis do que os que eu citei, mas, por terem uma boa infraestrutura turística, amenizam um pouco a situação. Quando não se tem acessibilidade e não se tem informações sobre o turismo local, aí sim você fica perdido. Então, o lugar pode não ser acessível, mas um serviço específico pode torná-lo melhor nesse quesito.

Laura Martins: É difícil dizer, porque a maioria dos destinos é muito carente em relação a isso. Além disso, há muita maquiagem e muito verniz por aí, para “cumprir” as leis sem, de fato, proporcionar acessibilidade. Isso ocorre, por exemplo, quando se coloca uma rampa tão íngreme que torna o acesso arriscado para o cadeirante.

Ao planejar uma viagem, no que as pessoas com deficiência precisam prestar atenção? Quais são os detalhes mais importantes?

Ricardo Shimosakai: É importante ter certeza que o local ou serviço realmente atende às suas necessidades. Imagine, eu sou um cadeirante, tenho lesão medular T7, sou paraplégico. Vamos pegar outra pessoa com o mesmo quadro clínico para fazer uma comparação. Eu sou ativo: trabalho, dirijo, faço todas as minhas atividades sozinho, até aprendi algumas peripécias como desviar guias de calçadas e andar de escada rolante. Agora, o outro personagem é mais reservado, não costuma sair de casa, é preguiçoso, gosta que os outros ajudem, e, com isso, criou certa dependência. Somos a mesma pessoa, com a mesma deficiência, mas temos dificuldades e habilidades diferentes. Por isso, também é difícil dizer que o lugar é acessível para uma pessoa, mesmo sabendo especificamente a deficiência dela. Na verdade, a deficiência é só uma base para o entendimento, mas as capacidades são características específicas.

Laura Martins Cadeira Voadora

Laura Martins, do blog A Cadeira Voadora

Laura Martins: Pessoas com deficiência precisam se certificar de que o destino lhes ofereça o mínimo de condições de acessibilidade, de forma que sua viagem seja, o máximo possível, confortável e segura. Se a pessoa puder contar com autonomia, tanto melhor, para que suas escolhas não precisem depender da disponibilidade dos outros. Exemplos:

– O transporte precisa ser acessível, de preferência transporte público, mas, no mínimo, táxi em condições de transportá-la;

– A hospedagem deve atender a suas necessidades específicas (cada pessoa tem um tipo de necessidade; por exemplo, algumas pessoas precisam de cadeira de banho). Para isso, é importante telefonar para o hotel e se certificar de todos os itens – acesso à portaria, ao restaurante, ao elevador, banheiro, espaço livre no quarto para a circulação da cadeira de rodas etc.;

– Além disso, é preciso planejar como chegar ao destino. Se optar pelo transporte aéreo, precisará avisar a companhia aérea acerca de suas necessidades;

– É útil que a pessoa procure se informar sobre cada atração que deseja visitar. Como chegar até lá? A entrada é acessível? É possível circular no local? Se precisar usar o toalete, ele é acessível? Se precisar fazer uma refeição, haverá como chegar facilmente ao restaurante? Tem elevador? Os detalhes são tantos que uma pessoa cuidadosa pode levar meses na preparação de uma viagem.

Do ponto de vista de acessibilidade, deixe algumas dicas essenciais para quem quer viajar mais tranquilo.

Laura Martins: Avalie suas necessidades específicas e não desconsidere seus limites, ainda que seja para superá-los. Avalie com atenção e cuidado todas as variáveis para que sua viagem possa ser uma experiência de prazer e não provocar estresse além da conta. Procure se certificar das condições de acessibilidade tanto quanto for possível, mas deixe espaço para as boas surpresas e não tenha medo de ousar. Todas as pessoas, por mais limitações que tenham, têm direito à aventura!

Natalie Soares
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Natalie Soares

Autora chez Viajando - Expedia Brasil
Pós-graduada em Mídias Sociais pela FAAP, é autora do blog de viagem e tecnologia Sundaycooks e fundadora da ABBV (Associação Brasileira de Blogs de Viagem). Atualmente trabalha como editora de conteúdo online e vive fazendo planos para a próxima viagem.
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