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Japão para iniciantes

Por mais experiente que eu acreditasse que eu fosse como “viajante”, nada me preparou para o Japão. Nasci em uma família budista e cresci em meio à cultura japonesa, porém em algum momento da vida me rebelei e quis deixar de lado tudo que aprendi. Bobagem! Eu sou na verdade uma grande sortuda.

Eu passei a sonhar com o Japão logo que fiz minhas pazes com ele. Acompanho alguns sites sobre o país, mas muito mais sobre o dia-a-dia do que experiências de quem foi apenas visitá-lo como eu. Há bons anos planejo esta viagem, mas posterguei o quanto pude, afinal todos dizem que ninguém é mais o mesmo depois de visitar o Japão. Quem está preparado para essa mudança? Finalmente chegou a hora, mas deixei de lado toda a parte básica e apenas acompanhei o que eu deveria visitar. Quais festivais? E exposições? Onde comer? Onde passear? O que está rolando de importante?

Meninas de Harajuku, em Tóquio

Meninas de Harajuku, em Tóquio (Foto: Lalai Persson)

O Japão é e não é o país mais fácil para se viajar. O lado fácil é porque tudo funciona perfeitamente e se você tem o Google te acompanhando, você vai se virar bem e é isso. Mas o difícil é uma característica  mais ou menos parecida com o Brasil, as pessoas não falam inglês, mesmo os mais jovens e descolados.

Também não faz parte do dia a dia tudo que imaginei de tecnologia mais avançada. Cartão de crédito? Esquece. Ele não é aceito na maioria dos lugares, nem mesmo na estação de trem que te leva num trem expresso do aeroporto para a cidade. Até em restaurante mais chique você pode se deparar com a frase “only cash”.

Revistaria maravilhosa na Tower Records (Foto: Lalai Persson)

Revistaria maravilhosa na Tower Records (Foto: Lalai Persson)

Me contaram que depois da última Copa do Mundo que rolou no Japão, as coisas melhoraram. Hoje há sinalização em inglês, o que ajuda bastante. Ter o “japonês” baixado no Google Translator pode te salvar em alguns momentos, especialmente se você estiver em lugares fora dos grandes centros. Muitas vezes tivemos que tirar foto do cardápio ou de alguma sinalização e traduzir palavra por palavra. Deu certo na maioria das vezes. Em outras vieram algumas surpresas.

Vamos lá, coisas bem básicas mesmo, mas que podem ajudar bastante nesta viagem:

VISTO

O visto para o Japão é um pouco chato no quesito “documentação”. Você tem que realmente provar que não vai ficar lá e tem dinheiro para se virar no país. Então já separe três meses de extrato do banco, extrato de investimentos, os três últimos hollerits (se tiver), a última declaração de imposto de renda e o recibo de entrega, comprovante de residência e, se for casado, cópia da certidão de casamento, cópia do passaporte e o passaporte original, além de uma  foto 3×4. Eles pedem também cópia da passagem aérea (ou reserva) e o roteiro, que é bem simples: data da viagem em cada cidade e endereço dos lugares onde vai ficar.

O processo custa R$ 79 e é pago somente em dinheiro no dia da retirada do visto, que sai em dois dias. O atendimento para quem está em São Paulo é feito às segundas, quartas e sextas-feiras, das 9h às 12h. A retirada é feita também às segundas, quartas e sextas, mas das 14h às 16h. O endereço é: Av. Paulista, 854 – 3º andar – Bela Vista/ Entrada pela Al. Joaquim Eugênio de Lima, 424.

INTERNET

Logo na saída do desembarque há uma loja pequena de telefonia. As opções são chip para o celular ou modem para carregar a tiracolo. O segundo vale muito mais a pena para quem prefere uma conexão decente e na hora que quiser. O modem custa US$ 5 por dia e pode ser utilizado por vários devices, até mesmo o computador. Já o chip tem limitação de 130MB de uso diário e depois, eles prometem, continua a funcionar, mas bem lentamente. E tão lentamente que não funciona. Caso você adore Instagram, caçar Pokemon e ainda fazer snapchat, esqueça, este plano não é para você. Ele é vendido em plano mensal e custa cerca de R$180, então invista nos ricos US$ 5 diários e seja feliz com um modem portátil.

Eu, virando os olhos numa loja de discos em Shimokitazawa (Foto: Ola Persson)

Eu, virando os olhos numa loja de discos em Shimokitazawa (Foto: Ola Persson)

O QUE NO JAPÃO NÃO É O MESMO QUE NO BRASIL

Coisas bem básicas, mas que eu não sabia:

  • Sake: significa bebida alcóolica. Qualquer coisa que tenha álcool é sake. O sake como o conhecemos é “nihon shus”.
  • Sushi: se come com a mão, mas pega com o polegar e indicador pelas laterais e molha apenas o peixe no shoyo. Não cometa o crime de misturar o wasabi no shoyo. Os japoneses ficam horrorizados, mesmo sabendo que “gringo” faz isso o tempo todo. Passe o wasabi no peixe e depois o mergulhe no shoyo. Ficará mais chique. E caso você vá pegar o sushi no prato de alguém, só o faça com o hashi.
  • Hashi: esse cheguei sabendo, mas vale repetir, porque vai que alguém não sabe. Nunca o enterre no arroz. Isso só é feito em cerimônias de funeral. Deixe-os descansar deitados ao lado do bowl de arroz.
  • Escada rolante: caso vá ficar parado, sempre fique na mão esquerda, que é a mão oficial da direção local.
Sashimi maravilhoso de atum gordo de um izakaya em Shinjuku: aquelas portas que a gente entra e nem acredita no que te aguarda (Foto: Lalai Persson)

Sashimi maravilhoso de atum gordo de um izakaya em Shinjuku: aquelas portas que a gente entra e nem acredita no que te aguarda (Foto: Lalai Persson)

PREÇOS

Sempre temi o Japão porque sempre ouvia “é o país mais caro do planeta”. E eu vivo batendo cartão na Noruega e sofro cada vez que coloco os pés por lá. Como eu conseguiria encarar o Japão? Pois bem, a crise chegou no país há algum tempo (não no nível da nossa crise) e quem mora em São Paulo ou Rio de Janeiro não sentirá tanta diferença. A conta de conversão é fácil (arredondada): 100 ienes = US$ 1 = R$ 3.

Vamos lá:

  • Cerveja custa em média 600 ienes, ou seja, US$ 6. Preço de balada no eixo Rio-SP.
  • Drink: surpresa! Custa praticamente o mesmo preço que a cerveja na maioria dos lugares, 700 ienes (US$ 7), e geralmente é bom. Achamos izakaya (bar de sake) em que a cerveja custava 150 ienes (US$ 1,50) e a garrafinha de sake 800 ienes (US$ 8).
  • Comida: é surpreendente como é possível comer barato. Quem acha que a cozinha japonesa se restringe à sushi e sashimi, vai achar o Japão realmente caro, mas a cozinha do dia-a-dia por lá não é essa. Tem muita coisa boa além do sushi-sashimi, mas muita coisa boa mesmo. Muito peixe, carne de porco, arroz, arroz, arroz, peixe, legumes, lámen, soba, tofu, muito tofu, e rabanete ou nabo em tudo. Nunca comi tão bem e tão generosamente por tão pouco. O preço médio é 1.200 ienes quando é mais caro, mas no almoço é possível comer um “PF japonês” com 600 ienes (US$ 6).
Instalação do teamlab no Mori Museum (Foto: Lalai Persson)

Instalação do teamlab no Mori Museum (Foto: Lalai Persson)

DINHEIRO & TRANSPORTE

O melhor é levar ienes do Brasil. Eu troquei na Tunibra, uma agência focada em turismo no Japão, que fica na Liberdade.

Para viagens internas, vale uma boa pesquisa dos trechos que irá fazer de trem. Cheque se eles são operados pela companhia JR, que nas viagens maiores (trem bala, por exemplo) atendem. O transporte no Japão é muito caro e vale mais a pena comprar o Rail Pass no Brasil, porque ele só é vendido para estrangeiro, mas não se vende no Japão. A venda é feita por dias: 7, 14, 30 dias e por aí vai. Aí vale calcular os trechos maiores que irá fazer de trem e o tempo em que irá fazê-los e comparar. O Google Maps dá a tarifa quando você pesquisa trechos. Eu comprei um passe de 7 dias e no final só valeu a pena porque eu mudei minha viagem completamente. O Rail Pass só é vendido após a emissão do visto para o Japão e pago em dinheiro.

Momento "Lalai brincando de performer nas ruas de Tóquio" (Foto: Ola Persson)

Momento “Lalai brincando de performer nas ruas de Tóquio” (Foto: Ola Persson)

Tóquio é bem servido pelo transporte público. O melhor é comprar um cartão nas máquinas de auto-atendimento em qualquer estação de trem ou metrô. Tem dois: o Pasmo e o Suica, que hoje tem exatamente a mesma função. Clique nele na máquina (ele sempre fica no canto esquerdo superior à mostra na tela), selecione pelo menos 1.000 ienes e voi lá, você terá 500 ienes para passear. Os outros 500 ienes serão reembolsados no fim da sua viagem quando você devolvê-lo na máquina. O ideal é já investir 5.000 ienes para não se preocupar com passagens. Por uma semana será possível rodar Tóquio sem ter que colocar mais crédito. A tarifa custa por estação e o mínimo cobrado são 170 ienes (+-).

ONDE FICAR

Tóquio oferece todos os tipos de acomodações possíveis. Hostels, hotéis, ryokan (hospedagem típica japonesa), etc. Vale dar uma boa pesquisada caso não queira gastar muito. Algo muito comum por aqui é encher a casa de futon e acomodar 10 pessoas onde caberiam 4 confortavelmente. Então não se assuste caso vá alugar um apartamento.

O ideal para quem vai à Tóquio pela primeira vez é ficar nas proximidades de Shinjuku, preferencialmente nas mediações próximas à uma estação da linha Yamanote, que é circular e facilita bastante rodar pela cidade.

Shibuya também dá fácil acesso para tudo, mas você pode ficar no meio do caos na terra dependendo de onde for seu hotel ou casa. Eu fiquei em Takadanobaba, duas estações antes de Shinjuku, e foi uma ótima escolha. O bairro tinha tudo que eu precisava e a casa a apenas 5 minutos da estação de metrô e trem.

Já quem prefere lugares mais trendy, Shimokitazawa tem boas ofertas, é um bairro boêmio e cheio de lojas de discos de designers independentes. É de cair de amores.

Para encontrar um endereço aqui é bom ter um Google Maps nas mãos, ele vai salvar a vida na maioria das vezes. A notícia ruim é que ele não tem a opção offline disponível no Japão, por isso um plano de dados é necessário para não passar perrengue.

Cemitério Okunoin em Koyasan, o maior do Japão. São 200.000 monges enterrados por lá (Foto: Lalai Persson)

Cemitério Okunoin em Koyasan, o maior do Japão. São 200.000
monges enterrados por lá (Foto: Lalai Persson)

QUANTO TEMPO FICAR E O QUE VISITAR

Vir para o Japão é um exercício, já que demanda no mínimo 26 horas saindo do Brasil. Eu vim de KLM via Amsterdã, numa viagem de 11 horas SP-Amsterdã, 3 horas de escala (super rápida) e 11 horas de Amsterdã à Tóquio. Por isso ficar menos de 7 dias por aqui é uma loucura, pois eu levei isso só para sair do jetlag.

Tóquio merece pelo menos uma semana inteira, pois tem muita coisa para fazer. Mas o que eu mais gostei em Tóquio foi sair sem rumo e me deixando me perder nos bairros e nas pequenas ruelas, que sempre surpreendem com alguma coisa. Tem os “must go” como:

  • Passear por Harajuku e Yoyogi Park. Nos finais de semana acontecem shows no parque e é bem bacana observar os locais curtindo o sábado e domingo com a família.
  • Caso goste de pedalar, é possível alugar uma bicicleta e rodar pela cidade, mas atenção: a mão aqui é inglesa e caso não tenha um guia, é bom ter um bom desempenho em cima de duas rodas. Eu fiz um tour ótimo com o Bradley, do Freewheeling Japan, de dois dias e valeu muito a pena, pois descobri uma cidade que provavelmente não descobriria sozinha.
  • Quem gosta de templos vai se esbaldar um pouco. O principal aqui é Senso-ji, que fica em Asakusa, um pouco afastado do Centro é um lugar extremamente turístico, mas vale a viagem. Por lá, achamos um delicioso e charmoso café para repor as baterias: February Cafe – 1-7-8 Kamanarimon Taito, Tóquio.
  • Passear pela área central de Shibuya, onde fica o maior cruzamento do mundo, passando cerca de 40.000 pessoas por dia. Caso queira fazer uma boa foto, suba no Starbucks numa das esquinas e ache um espaço numa das concorridas janelas. É turístico, mas é incrível observar o vai e vem de pessoas por ali.
  • Tem vários lugares imperdíveis para visitar em Shibuya e algumas bem básicas:
    • Tokyo Hands, uma loja de departamento que vende tudo que você precisa e não precisa. O andar de itens de viagem é de cair o queixo. Tem um andar dedicado à papelaria, eletrônicos, bicicletas, etc. Tem tudo mesmo, até móveis.
    • Muji: tem que ir, afinal está no país dela e a Muji é uma marca incrível. Tem lojas espalhadas por toda a cidade, mas tem uma gigantesca em Shibuya. No Japão, além de roupas e objetos básicos para o dia-a-dia, tem também livros, móveis, roupa de banho e cama e até comida.
    • Uniqlo: ótima marca para comprar peças básicas. Vale investir num chashmere.
    • Tower Records: são 6 andares só de música com todos os estilos que se possa imaginar, além de uma seção só de livros e revistas relacionados ao tema. Claro que tem que parar no andar dedicado ao pop japonês e gastar um tempo lá ouvindo bandas que você nunca ouviu falar.
  • Passear pela região (fancy) de Aoyama e Omotesando para apreciar a arquitetura das grandes lojas como Prada, Commes de Garçons, Issey Miyake, entre outras grandes marcas. Tem também ótimas lojas de cosméticos e muitos salões de cabeleireiros. Próximo à famosa loja da Prada Aoyama tem o Commune 246, uma praça com alguns food trucks, incluindo opção vegetariana (algo raro no Japão), cafés e lojinhas. É umo ótimo lugar para um pit stop.
Surpresas nas ruelas que são mesmo para se perder... (Foto: Lalai Persson)

Surpresas nas ruelas que são mesmo para se perder… (Foto: Lalai Persson)

  • Há vários museus que valem a visita, mas três para colocar na agenda são:
    • 21_21 Design Sight, que além da sua imponente arquitetura, fica num belo parque e abriga exposições diversas relacionadas à arquitetura e design.
    • Watari Museum dedicado à arte contemporânea, é um museu pequeno com três andares compactos e abriga quatro exposições temporárias por ano. O projeto arquitetônico do prédio é do Mario Botta. A exposição atual é uma dedicada ao Nam June Paik, pai da video-arte, que está sendo apresentada em duas partes (a segunda parte entra no próximo dia 15.10). Não deixe de visitar a lojinha no subsolo. Ao sair do museu, entre na ruela à direita e deixe se perder por ali. Vai reto nela que não tem erro!!! Vai ser uma surpresa atrás da outra, mesmo que no início você ache que entrou na rua errada. Pare no Lattest, um café super charmoso e gostoso a poucos metros do museu.
    • Mori Art Museum é o museu mais alto do mundo. Ele fica no 53º andar do Mori Tower, no Roppongi Hills, que é a grande atração. Mas eles vedaram a maior parte das janelas e não é possível ver a bela vista que o lugar oferece. Caso queira vê-la, é necessário pagar a parte e acessar uma área em que não há exposição. Até janeiro de 2017 está rolando a ótima exposição “The Universe and Art”, que conta até com os livros originais do Copérnico e Galileu Galilei. Mas o grande momento é o fechamento da exposição com uma instalação do TeamLab, coletivo japonês, que é de chorar de linda.
  • Bairros: cada bairro de Tóquio tem uma personalidade própria. É bem legal porque você sente a diferença de cada um e no fim da viagem achará um para chamar de seu. Eu provavelmente chamo de meu Shimokitazawa. Não se prenda apenas à região central. Vale passear por lá, por Sasazuka, e também pelas badaladas Nakameguro, área descolada do bairro Meguro, que fica nas margens do rio de mesmo nome. Por ali várias lojinhas, restaurantes, cafés, bares. Já o bairro de Ikebukuro, fica mais ao norte da cidade, e tem as grandes lojas como Big Camera, Muji, Loft, entre outras. É uma área boa para compras e com bons restaurantes.
  • Caso você ame livros, não pode deixar a cidade sem visitar Daikanyama Tsutaya Books. Dá para perder horas lá dentro entre as várias seções de livros, incluindo muitos títulos em inglês, além de uma revistaria de cair o queixo. Tem também uma área dedicada ao design, que dá vontade de comprar tudo.
  • Ama lámen? Tóquio pode ser considerada a capital da gastronomia com cerca de 80.000 restaurantes espalhados, alguns deles estrelados. O Tsuta é o restaurante mais barato do mundo que tem estrelinha Michelin. Só atente ao sistema de senha para conseguir desfrutar do seu lamen, que irão custar cerca de US$ 10.
Procurando um bar secreto num templo budista em Kyoto (Foto: Lalai Persson)

Procurando um bar secreto num templo budista em Kyoto (Foto: Lalai Persson)

E isso é só um aperitivo do que a cidade oferece. Ela é rica para quem gosta de qualquer coisa. Arquitetura, arte, design, gastronomia, café e, principalmente, as pessoas, que são as mais estilosas que já vi em qualquer parte do mundo que eu tenha ido.

Prepare o coração para se apaixonar!

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Lalai Persson

Lalai Persson

Autora chez Viajando - Expedia Brasil
Lalai Persson é DJ e produziu festas por 5 anos em São Paulo, trabalhou por 10 anos com publicidade, é uma das co-fundadoras da agência Remix Social Ideas, além de ser curadora da área de música de eventos como youPIX e Campus Party. É blogueira desde o início de 2000 e em 2013 criou o Chicken or Pasta, site de lifestyle de viagens. Atualmente está na estrada sempre que possível.
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  • Fernando Britto

    A coisa mais legal que eu fiz em Tóquio foi visitar a “piss alley” em Shinjuku. A ruazinha que inspirou Ridley Scott enquanto ele fazia Blade Runner. É uma máquina do tempo, que te transporta ao passado ou ao futuro… a comida na rua é super barata e o bar Albatross é sensacional!!