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Entrevista do mês: como viajar sozinho com Mari Campos

A nossa entrevistada desse mês é dona de um dos passaportes mais cheios de carimbos legais que eu conheço. A Mari Campos é jornalista especializada em turismo e escreve para diversos veículos nacionais e internacionais sempre contando suas aventuras pelo mundo.

No bate-papo abaixo, ela divide dicas, conselhos e informações para quem quer cair na estrada sozinho, mas ainda precisava daquele empurrãozinho extra.

O que te motivou a começar a viajar sozinha e de forma independente?

Sempre gostei de passar um tempo comigo mesma, desde pequena. Mesmo viajando com outras pessoas, gostava de tirar um dia ou período para passear sozinha, do meu jeito, fazendo as minhas coisas. A primeira vez que fiz uma viagem 100% sozinha eu já era casada (casei bem novinha, aos 22) e viajei solo pelo mesmo motivo que muita gente começa a fazê-lo: eu tinha dias de férias para tirar e meu marido, não. E eu sempre me recusei a ficar um dia sequer em casa durante as férias! Adorei a experiência e passei a fazê-la com frequência, fosse por prazer ou por causa do meu trabalho como jornalista da área – e estou nessa até hoje.

Quando você percebeu que realmente estava ajudando outras viajantes a tirarem seus sonhos de viagem do papel?

Logo que comecei a viajar sozinha, vi que amigos – homens e mulheres – começaram a desmistificar a ideia e a pensar em viajar sozinhos também. Pediam dicas, trocávamos ideias, eu dava sugestões. Começou aí. Mas em larga escala, acho que foi só com os blogs MariCampos.com, que é meu blog pessoal há quase oito anos, e o Saia Pelo Mundo, que eu mantinha no Viaje Aqui, da Editora Abril – e que tinha mesmo como foco o universo das mulheres viajantes. Depois veio meu livro Sozinha Mundo Afora (ed. Verus/Record) em 2011 e a coisa ganhou ainda mais força. Confesso que eu adoro! Recebo semanalmente feedbacks incríveis de leitores que tinham receios de explorar o mundo em sua própria companhia, arriscaram, adoraram a experiência e já estão planejando a próxima. Gente de todas as faixas etárias, estilos de vida e classes sociais. Acho isso sensacional.

Qual é a principal dica você costuma dar para quem ainda se sente insegura em cair na estrada sozinha?

Hum, acho que não tem uma dica principal. Se tem, é só um conselho: vá! 🙂 Viajar sozinho faz bem pra gente. Pra se conhecer melhor, conhecer melhor o outro, testar seus limites, reafirmar preferências. Viajar acompanhado pode ser maravilhoso mas acho que nos abrimos muito mais, para nós mesmos e os outros, quando viajamos sozinhos. Muita gente confunde viajar sozinho com viajar solitário – e estar sozinho ou ser solitário são coisas muito diferentes. Várias pessoas têm medo da solidão ao encararem uma viagem solo, mas acabam voltando surpresas com a quantidade de novos amigos que fizeram na estrada.

A foto da cidade de Chicago representa bem o lado urbano indicado pela nossa entrevistada, que indica grandes cidades como busca de um roteiro para os viajantes solo

A foto da cidade de Chicago representa bem o lado urbano indicado pela nossa entrevistada, que indica grandes cidades como busca de um roteiro para os solo travelers

Quais roteiros você mais recomenda para solo travelers?

Eu sou bem radical e acho que qualquer lugar pode ser bom para viajar sozinho ou viajar acompanhado. Vai depender mesmo do estilo e perfil de cada viajante. Ir para a praia sozinho é o céu para algumas pessoas mas pode ser o inferno para outras. Mas, principalmente para as primeiras experiências em solo travel, eu costumo recomendar cidades maiores ou cidades universitárias justamente por terem melhor infra de transportes e hoteleira, por exemplo, e, em geral, maior oferta de vida cultural – e maior chance de topar com pessoas legais pelo caminho, para quem tem medo de se sentir solitário durante a viagem.

A internet é a melhor amiga na hora de matar a saudade?

Mesma coisa aqui: a internet ajuda a matar a saudade tanto para quem viaja sozinho como para quem viaja acompanhado. É uma mão na roda para qualquer viajante hoje em dia, né? Para o solo traveler, ela pode ter também outras vantagens: é ferramenta importantíssima para se conectar com outros viajantes ou novos amigos feitos na estrada e ótima companhia nos restaurantes para quem odeia fazer suas refeições sozinho.

Existe algum destino que é desaconselhável para mulheres que viajam sozinhas?

Existem destinos mais complicados, é verdade. Diferenças culturais têm que ser sempre respeitadas quando somos nós os visitantes, não importa se somos homens ou mulheres. Para as mulheres, para alguns destinos eu recomendo precaução redobrada – porque há destinos que eu mesma, que já viajei sozinha em quase 50 países diferentes, fico protelando uma aventura solo. São sociedades mais fechadas, que não veem mulheres independentes com bons olhos por questões morais, políticas e religiosas, incluindo alguns países muçulmanos. Mas também não dá pra fazer disso regra ou preconceito: há países muçulmanos como a Jordânia, por exemplo, em que é super factível uma mulher viajar sozinha, sem stress (sempre comento que me senti muito mais agressivamente assediada na super turística Marrakech, no Marrocos, que no interior da Jordânia).

Petra, na Jordânia, um país muçulmano mas que recebeu muito bem Mari Campos quando viajava sozinha

Petra, na Jordânia, um país muçulmano mas que recebeu muito bem Mari Campos quando viajava sozinha

E questões de segurança? Algum conselho extra?

Aqui também sou radical: acho que os cuidados com a segurança têm que ser os mesmos para quem viaja sozinho e quem viaja acompanhado. Temos que cuidar da gente e de nossos pertences o tempo todo e fazer valer lá fora os mesmos cuidados que tomamos no Brasil – não pode relaxar só porque “estamos na Europa”, por exemplo. Segurar bolsa, não dar bobeira com celular, entrar em ruas desertas ou escuras, prestar atenção em tudo que acontece ao nosso redor etc. A única diferença é que, viajando sozinho, a gente não tem com quem dividir essa responsabilidade. Sobre a questão específica do assédio, sim, há destinos onde isso é exacerbado simplesmente por sermos quem somos, por sermos fisicamente diferentes ou por nos vestirmos diferente das mulheres locais. É um fato. Por isso é tão importante respeitar a cultura local também na maneira de se vestir ao visitar um lugar. Se é obrigatório cobrir a cabeça com um lenço, vamos cobrir a cabeça com um lenço e ponto final – ou, se não aceitamos isso, melhor escolher outro destino para as férias. Vale lembrar que em muitos destinos esse assédio é mais constrangedor (em linhas secas, “enche o saco”) que perigoso – tipo quando passamos em frente a uma construção aqui no Brasil.

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Natalie Soares
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Natalie Soares

Autora chez Viajando - Expedia Brasil
Pós-graduada em Mídias Sociais pela FAAP, é autora do blog de viagem e tecnologia Sundaycooks e fundadora da ABBV (Associação Brasileira de Blogs de Viagem). Atualmente trabalha como editora de conteúdo online e vive fazendo planos para a próxima viagem.
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