Boipeba, um paraíso quase escondido na Bahia

A primeira vez que fui para a Bahia foi no último revéillon. O convite surgiu despretensioso e abracei por falta de planos. Não pesquisei muito a respeito, mas tudo que li e ouvi me remetia a um lugar inóspito e com estrutura sofrível. Entre a Velha Boipeba, o centro da ilha, e Moreré, uma das praias principais, optamos pela segunda. Tudo que lemos na sequência é que Moreré é um dos lugares mais legais para ir quando se está em Boipeba e que a estrutura era ainda mais restrita.

Fomos armados de um supermercado na mala e o que descobrimos? Aparentemente, Moreré evoluiu bastante desde a última ida dos amigos para lá. A praia deveria entrar na lista de lugares para ir antes de morrer de todo mundo. Voltei de queixo caído com tamanha beleza.

Praia de Cueira, Boipeba (Foto: Lalai Persson)

Praia de Cueira, Boipeba (Foto: Lalai Persson)

Sobre Boipeba e Moreré 

Boipeba é um primeiros locais brasileiros colonizados na Bahia, ainda em 1537 pelos jesuítas. A ilha é formada pelos povoados de Velha Boipeba, Cova da Onça, Moreré, Monte Alegre (um antigo quilombo de escravos) e pertence ao município de Cairu. Para chegar lá só por via marítima ou voando. Boipeba é cercada de um lado pelo oceano e de outro pelo estuário do Rio do Inferno.

Boipeba é um paraíso quase intocado e dividida entre duas áreas principais, Velha Boipeba e Moreré. Por lá carros não circulam. A locomoção entre as duas pode ser feita a pé quando a maré está baixa, numa agradável caminhada de uma hora, de trator ou de barco. Você escolhe.

Moreré tem cerca de 250 habitantes, dois mini mercados, alguns restaurantes e bares, quase todos pé na areia ao longo da costa da ilha, e pousadas. A maioria não aceita cartão de crédito, por isso leve dinheiro em espécie. Internet também é artigo de luxo, então aproveite para um bom detox. Por lá, apenas ruas de areia, então também não é necessário levar nada além do que um par de chinelos.

O mar é calmo seguindo um relógio muito particular da maré, mudando completamente o cenário à sua volta. A água pode estar tanto tomando conta da areia quanto estar a mais de 1km da costa. Areia fofa, mar calmo com águas cristalinas, manguezais, coqueirais, dunas e recifes, que cercam toda a costa litorânea de Boipeba, emoldurada pela Mata Atlântica, fazem da região uma das mais belas do litoral baiano. A maré está baixa? Hora de passear. A maré está alta? Escolhe um bom canto para apreciar a natureza à sua volta.

Mar calminho que dá até para cochilar nele (olha eu dormindo ali) - (Foto: Renato Salles)

Mar calminho que dá até para cochilar nele (olha eu dormindo ali) – (Foto: Renato Salles)

A ilha é perfeita para quem ama praia, quer recarregar as energias, não quer ver o tempo passar, quer ficar desconectado, comer e beber bem, gastar pouco, colocar os livros em dia, ver o céu estrelado como poucos lugares permitem. Não há muito o que fazer além de curtir uma boa praia, relaxar e fazer longas caminhadas. Ou seja, se você é daqueles que ama uma viagem para lugares com vida noturna agitada, fuja! Boipeba não é um destino para quem aprecia sofisticação e agito.

Boipeba é um lugar mágico onde parece que a Terra parou. As crianças correm soltas pra cá e pra lá sem os pais por perto, hippies vão e vem por todos os cantos da ilha, trazendo um ar de anos 1970 ao local. Há inclusive alguns acampamentos espalhados por Boipeba, deixando o lugar com uma atmosfera bem jovem. A ilha surpreende por ser tão bem cuidada e quase selvagem em diversos pontos. Para transitar à noite em Moreré é necessário estar munido de uma boa lanterna para não passar apuros, a menos que você não queira se aventurar por lá quando a noite cai.

Mesmo em cantos mais remotos da ilha, onde sombras para fugir do sol nos seduzem para passar o dia, passam vendedores empurrando um carrinho de mão com cerveja bem gelada e água de coco. A praia da Cueira, entre Boipeba e Moreré, além de linda, tem um largo trecho de areia fofa, com a maré mais estável em boa parte dela, dando para curtir o mar e até pegar jacaré dependendo do horário. Por ali há alguns quiosques onde dá para tomar um drink e beliscar quando a fome bater, mas a recomendação é estar sempre munido de uma garrafa grande d’água, um chapéu de abas grandes e um indefectível protetor solar, porque o sol queima – e bastante! Para atravessar a pé vindo de Moreré, tem o Rio do Oritibe, um rio estreito, que vai se alargando até desaguar no mar, onde muita gente escolhe passar o dia. Quando a maré sobe, o rio sobe junto e aí é impossível atravessar, a não ser nadando.

As piscinas naturais formadas em diversas partes próximas à ilha são uma atração à parte. Algumas são possíveis de serem alcançadas a pé quando a maré está baixa. Próximo delas, há alguns bares flutuantes para ajudar a combater a sede com cervejas e drinks bem gelados. Alguns desses bares servem até pastel de lagosta, veja só! Dá para ficar horas em uma das piscinas ou em praias que se formam no meio do mar quando a maré ainda não subiu. Algumas pessoas levam até guarda-sol e montam toda uma estrutura, incluindo comida e bebida, para curtir as praias que se formam em bancos de areia e que existem apenas algumas horas por dia.

Ver o sol nascer ou se pôr é dos espetáculos mais belos que provavelmente você já viu, assim como o céu estrelado, que é daqueles em que a gente vê a Via Láctea e pena para não achar um pontinho branco no céu. Pegamos lua cheia e foi outro espetáculo inesperado, com a lua refletindo imponente no mar. Eu chorei escondida de tanta emoção.

Torço para que esse paraíso dure ainda por muito tempo e que eu possa voltar para lá quantas vezes eu quiser. E quero várias!

O coqueirão, um dos cartões postais de Moreré, num momento com a maré baixíssima (Foto: Lalai Persson)

O coqueirão, um dos cartões postais de Moreré, num momento com a maré baixíssima (Foto: Lalai Persson)

Onde ir e comer

Uma das delícias de Boipeba é alugar um barco para dar uma volta completa na ilha. Vale a pena começar visitando o Bar das Ostras, onde são servidas ostras durante o dia todo, inclusive no café da manhã. A Cova da Onça, que vem na sequência, eu pularia, pois acho que há lugares mais interessantes para ver. É na Cova da Onça a parada para o almoço, mas particularmente eu mataria a fome com pastéis em algum dos bares que ficam nas piscinas naturais ou na Ponta de Castelhanos.

A Ponta de Castelhanos é imperdível, considerada uma das praias mais belas de Boipeba. O lugar tem mangues e árvores nascendo no meio da areia, além de pequenas piscinas naturais que se formam entre o mangue e a praia, que é longa e de faixas largas, também com a maré indo e vindo. A praia é perfeita para quem adora longas caminhas e curte mergulhar com snorkel. Na maré baixa, as piscinas naturais se formam entre os recifes e também entre os bancos de areia.

Quem curte mergulhar pode ver o que restou do navio espanhol Madre de Dios, naufragado por ali em 1535, além de belos recifes de corais.

Caso fique na Velha Boipeba, não deixe de separar um dia só para Moreré. Tome café e vá para lá curtir uma praia, almoce no delicioso Paraíso, tome uma cerveja num dos botecos do centrinho. Para fechar a noite, jante no O’Ba, comandado por um russo, ou na charmosa e concorrida pizzaria meio espanhola, meio brasileira, Todo Pasa. Ou coma uma tapioca ou um acarajé em uma das barracas de comida que ficam ali pelo centrinho. São deliciosos.

Testamos o famoso restaurante Guido, conhecido pela lagosta na manteiga, e o único da Praia de Cueira, mas acabamos nos decepcionando após ter recebido as melhores referências sobre ele. O atendimento é lento e o restaurante lota com barcos vindos de Morro de São Paulo, tornando o lugar barulhento demais, o que destoa completamente da praia onde fica. A comida é razoável, nada especial, e também foi um dos restaurantes mais caros que fomos em Boipeba.

Como ir

Ferry boat + Carro ou ônibus + Lancha

Fechamos um táxi do aeroporto de Salvador até Graciosa, em Valença, onde a nossa lancha nos esperava. São 300km a partir da capital, feitos em cinco horas. O trajeto de carro dura cerca de quatro horas e a lancha faz o percurso em menos de uma hora.

Algumas agências oferecem o pacote por cerca de R$ 220,00 por pessoa. Mas também é possível fazer tudo com transporte público: pegar o ferry boat que sai de hora em hora na Baía de Todos os Santos, até Bom Despacho. A viagem dura 1 hora e custa R$ 5. Em Bom Despacho, a viagem continua de ônibus (2h30 de viagem por R$ 23) até Valença ou de táxi.

Praia de Castelhanos (Foto: Lalai Persson)

Praia de Castelhanos (Foto: Lalai Persson)

Também há barcos saindo a cada 30 minutos do Mercado Modelo, em Salvador, até Mar Grande pelo mesmo preço, sendo a viagem feita em 40 minutos (foi a opção que escolhemos na volta). Em Mar Grande, tem van para Nazaré, onde se pega um ônibus até Valença.

Em Valença, pode-se pegar um barco rápido para Boipeba, que sai entre 10h e 16h (ou 18h de acordo com o movimento) por R$ 38. Gasta-se uma hora no trajeto. Caso fique em Moreré, é necessário pegar um trator, que custa R$ 10, em Boipeba. No centrinho de Moreré, descobrimos barcos que saem de lá para Valença também por R$ 75, o que economiza um bom tempo por não precisar se deslocar até Boipeba, já que do ponto final do trator até o cais é necessário fazer uma boa caminhada.

O mangue em Castelhanos (Foto: Lalai Persson)

O mangue em Castelhanos (Foto: Lalai Persson)

Avião

São 3 voos diários saindo do Aeroporto Internacional de Salvador para Fazenda do Pontal, na ilha de Tinharé: 8h30, 12h30 e 15h30. Há uma travessia do aeroporto para Boipeba, já incluída no valor da passagem. A viagem leva apenas 30 minutos e custa R$ 570 a passagem, mais R$ 30 a taxa de embarque. Reservas aqui neste link.

Aqui neste link tem outras formas de chegar até a ilha, mas as relatadas acima são as que recomendamos.

Caminhada de Moreré para Praia de Cueira (Foto: Lalai Persson)

Caminhada de Moreré para Praia de Cueira (Foto: Lalai Persson)

Onde ficar 

Nos hospedamos em um dos 3 bangalôs do Paraíso, o último restaurante da praia a cerca de um quilômetro do centrinho. As pousadas são todas bem rústicas e simples. Para quem busca por lugares mais sofisticados, as opções ficam na Velha Boipeba, que tem uma infra-estrutura maior. Mas meu voto é “fique em Moreré”. Há pousadas para todos os bolsos e gostos. Apesar do calor intenso que rola na ilha, quartos com ventilador de teto dão conta do recado, pois a ilha é bem fresca à noite.

Lalai Persson

Lalai Persson

Autora chez Viajando - Expedia Brasil
Lalai Persson é DJ e produziu festas por 5 anos em São Paulo, trabalhou por 10 anos com publicidade, é uma das co-fundadoras da agência Remix Social Ideas, além de ser curadora da área de música de eventos como youPIX e Campus Party. É blogueira desde o início de 2000 e em 2013 criou o Chicken or Pasta, site de lifestyle de viagens. Atualmente está na estrada sempre que possível.
Lalai Persson

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