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8 dias navegando em rios entre Amazonas e Roraima

Foram 8 dias passeando pelo Rio Negro e Jauaperi sem um pontinho de wi-fi sequer. O único meio de telecomunicações durante a viagem foi o “orelhão”, alguns que encontramos em pequenas comunidades ribeirinhas ao longo do rio. Foi a viagem perfeita que eu precisava para me desconectar de tudo e ter apenas à natureza e as pessoas à minha volta como pontos de contato. E posso dizer? Foi incrível! Oito dias sem sequer imaginar o que estava acontecendo no mundo.

A viagem já começa em São Paulo, afinal o que é Xixuau? E onde fica Novo Airão? Vamos visitar alguma tribo indígena? Qual? E o que vamos comer? Tem banho quente? Onde vamos dormir? Seguimos um dos roteiros da Katerre.

Fiz uma expedição navegando 8 dias pelos rios Negro e Jauaperi, passando por Anavilhanas, Parque Nacional do Jaú até chegar em Xixuau, uma reserva em Roraima.

Vista da reserva de Xixuau (Foto: Lalai Persson)

Vista da reserva de Xixuau (Foto: Lalai Persson)

Esta viagem é perfeita para quem ama natureza e silêncio. É perfeita para quem está precisando respirar e contemplar um céu estrelado. É perfeita para quem admira a vida selvagem, quer se conectar com a vida simples, mas não necessariamente fácil. Além de tudo, é perfeita para quem está precisando reequilibrar a alimentação e o coração. Porque ir pra lá é um bom exercício para ajustar o nosso eixo e deixar a ficha cair de como nos preocupamos e nos estressamos diariamente com coisas que não valem a pena. Esta viagem vale tanto quanto várias sessões de terapia, afinal quando temos oportunidade de colocar o velho clichê em prática “desconectar para se reconectar”? E é disso que se trata este tipo de viagem. Só vai ser diferente caso queira. A única certeza que dou é: a viagem vai ser boa de qualquer jeito.

Como é a viagem?

A chegada é por Manaus, onde um motorista nos levar para Novo Airão num percurso de cerca de 204km feitos em 3 horas de viagem. O início de tudo foi um encontro no restaurante Flor do Luar, que tem cardápio criado pela chef Débora, do restaurante Caxiri (SP), para um almoço acompanhado de ótimas caipirinhas e mergulhos no Rio Negro. Foi lá onde comi a melhor costelinha de tambaqui da vida acompanhada de banana da terra, farofa e arroz com cereais. Atendimento impecável num lugar super simples e rústico à beira do rio. É um drink, um petisco e um mergulho.

Entardecer no rio Negro (Foto: Lalai Persson)

Entardecer no Rio Negro (Foto: Lalai Persson)

No início da viagem há uma apresentação sobre como serão os próximos 8 dias incluindo relatos sobre as comunidades e escolas que visitamos. Na sequência fomos brindados com uma parada para um mergulho no meio do Rio Negro acompanhado de caipirinhas e drinks antes de seguir para Madadá, onde passamos a primeira noite. Jantar no barco e então seguimos para uma noite no meio da floresta para dormir em redes estendidas num mirante coberto, que oferece uma vista privilegiada.

Não é obrigatório. Caso trema só de pensar, é possível ficar no barco. Mas não dá para ter muita frescura caso queira curtir o melhor que a Amazônia pode oferecer. Rolou um medo generalizado inicial, mas aos poucos todos relaxaram e dormiram até as primeiras luzes do dia surgirem e nos despertarem. No segundo dia o sol despontou no horizonte às 5:45 formando um dos mais belos espetáculos que já vi e foi um dos momentos ápice da viagem.

No meio da floresta (Foto: Lalai Persson)

No meio da floresta (Foto: Lalai Persson)

Ali estava o sol subindo laranja como poucas vezes vi na vida. Os raios ainda não apareciam. Era uma grande bola laranja e ficamos todos hipnotizados. Foram cerca de 20 minutos até ele subir por completo. O dia raiava, a fome batia e sequer lembrávamos que ainda eram 6 da matina. Voltamos para o barco onde um farto café da manhã nos esperava: pães artesanais, tapioca, frutas diversas, frios, sucos, café, bolos, ovos. Eu só queria morar ali no café da manhã pra sempre.

Foi o momento em que começamos a nos entrosar, afinal são duas mesas cada uma para 8 pessoas. No barco éramos 12 de São Paulo, 1 de Novo Airão (um menino de 8 anos que nos acompanhou) e 3 alemães.

Rio Negro (Foto: Lalai Persson)

Rio Negro (Foto: Lalai Persson)

Fizemos um passeio de três horas por florestas primárias (que nunca foram derrubadas pelo homem) e visita às Grutas de Madadá. Por ali aprendemos um pouco sobre a vegetação e vida animal, vimos coruja, macaco, pássaros e até morcegos. O Tito, capitão do barco que cresceu na região, foi quem conduziu o passeio falando sobre cada árvore, planta e até insetos. É uma aula e tanto. A volta merecidamente nos jogamos no rio e lá ficamos por horas. É o céu na terra após 3 horas caminhando com um calor que beira o insuportável, mas que vale muito a pena. Tem que fazer. Almoço preguiçoso e seguimos para a Praia do Sono, praia linda de areia branca e fofa com a floresta imponente atrás. Águas calmas perfeitas para a prática de stand up. Passamos um bom tempo por lá mas a tempo de assistir um dos mais belos pores-do-sol que vimos durante a viagem.

Tivemos a sorte de pegar o eclipse lunar no meio do Rio Negro. Foi o presente, afinal estávamos em meio à escuridão completa, tendo apenas as estrelas e a própria lua iluminando ao nosso redor. Jantamos já mais familiarizados uns com os outros e fizemos plantão no deck do início ao fim do eclipse conseguindo ver cada pontinha da lua sendo coberta até ela ficar quase escura e uma chuva de estrelas cadentes começar a acontecer. Foi um dos espetáculos mais belos da natureza que já vi. Para nossa sorte ainda tínhamos uma lua de sangue muito próxima à Terra, que nos rendeu espetáculos noturnos diários.

A beleza dos igarapés (Foto: Lalai Persson)

A beleza dos igarapés (Foto: Lalai Persson)

E assim se seguiram os dias sempre com lugares novos, incluindo vilarejos, visitas às comunidades ribeirinhas e 3 escolas, o que trouxe uma noção da diversidade educacional que existe no Brasil, assim como todas as dificuldades que é levar a educação à lugares remotos como para o meio da Floresta Amazônica.

Visitamos o Parque Nacional do Jaú e passamos uma manhã na Cachoeira do rio Pauini, que já estava quase seca na época em que fomos (outubro), mas ainda a tempo de desfrutá-la um pouco. É incrível esse espetáculo da natureza de “cheia” e “seca” transformando a natureza por completo. Ver a cachoeira com pequenos degraus em que ainda a água por ali passava suficiente para massagear nossas costas, em breve estaria completamente seca e há poucos dias estava completamente cheia impossibilitando sentar nas pedras como estávamos. Na época em que viajamos o rio tinha descido entre 4 e 6 metros, mas em vários lugares ainda desceria por mais 8. É impossível imaginar a areia branca surgindo e impossibilitando o acesso de barco em alguns cantos, além de formar belas praias no meio do rio.

Fizemos focagem, que é navegar por igarapés em pequenos barcos na completa escuridão para ver jacaré. As emoções passeiam entre o medo e a excitação. Além da possibilidade de ver jacarés, passear pela escuridão ouvindo os barulhos da floresta, dos bichos, da água e do movimento do barco, é também uma emoção a parte. Traz um contato com algo no nosso interior que não costuma ser desperto.

Passamos um dia com os alunos da Escola Viva Amazônia, liderada por um casal meio irlandês, meia italiana, que largaram tudo para se dedicarem à educação das crianças num lugar onde a infra-estrutura é ínfima e completamente isolado do mundo. E imagina nossa emoção ao chegar lá e as crianças terem preparado uma peça de teatro para nos apresentar, já que sabia da nossa visita. Depois ainda fomos curtir uma “praia” com elas e foi também outro ponto alto da viagem.

Escola Viva Amazônia (Foto: Lalai Persson)

Escola Viva Amazônia (Foto: Lalai Persson)

Passar 8 dias navegando por rios em meio à Floresta Amazônia são calmos e intensos, pois temos todo o tempo do mundo para pensar, contemplar, conversar ou apenas se desligar.

Vi de perto também a luta pela preservação de uma espécie quase rara de tartarugas, a tartaruga-da-Amazônia, da família dos quelônios, que levam entre 10 e 12 meses de gestação e tem apenas uma tartaruga por gravidez. São 4 espécies que colocam os ovos na praias, por isso, sofrem ameaças. Hoje elas são contrabandeadas em mercados negros e desaparecem a cada ano.

Mais legal do que apenas viajar pela Amazônia, que é tão imensa, é se embrenhar na cultura dela. É conversar com as pessoas, visitar a casa delas, assistir aula com as crianças e contar um pouco sobre você para elas. É ter um contato ainda maior com uma vida simples onde menos é mais.

E volto como sempre voltamos de viagens incríveis: renovada, feliz, mais gordinha (afinal comi bem o tempo todo), com lembranças emocionadas, novas amizades que vou gostar de manter e expectativa pela minha próxima aventura.

Comunidade ribeirinha (Foto: Lalai Persson)

Comunidade ribeirinha (Foto: Lalai Persson)

Informações gerais:

O barco

O barco Jacaré-Açu possui 3 andares, sala de estar, deck com espreguiçadeiras e redes, 16 cabines, sendo 8 com cama de casal e 8 com beliches, todas com banheiro, ar-condicionado e chuveiro. Esqueça banhos quentes, afinal estamos em meio a uma temperatura nas alturas, então entrar na ducha fria com água vinda do rio vai ser sempre um alívio. As camas são confortáveis e a janelinha sempre emoldurará paisagens de tirar o fôlego. Há também uma sala de jantar e cozinha, que funciona das 7 às 22h diariamente e fica totalmente à nossa disposição. Tudo é preparado nela: café da manhã, almoço, petiscos e jantar. Na nossa viagem tivemos sorte de ter peixe fresco todos os dias, além de muitos legumes, verduras e frutas típicas da região. Comer era sempre uma benção de tão incrível e simples ao mesmo tempo que eram as refeições. Para mim foi um ótimo detox.

Praia do Sono (Foto: Lalai Persson)

Praia do Sono (Foto: Lalai Persson)

Insetos

Mosquitos não são comuns no Rio Negro, então não se preocupe tanto com eles, mas não deixe de levar um bom repelente para usar nos passeios na floresta ou nos igarapés à noite, quando a luz das lanternas os atraem.

Roupas

Apesar de ser extremamente quente o ano todo, não deixe de levar um agasalho completo e camisa de malha fina de manga comprida para usar a noite quando estiver no deck. Para passeios pela floresta vale ter uma calça comprida de tecido leve, um bom tênis e meia no tornozelo para que não tenha contato com formigas. Chapéu também é bem-vindo. No mais, acaba-se usando shorts e roupas curtas a maior parte do tempo para aguenta a sauna amazônica. Vestidos, roupas leves, canga, camiseta regata, biquini ou sunga e é isso.

Já para os pés, chinelos, um tênis e se der, vale levar uma sapatilha de neoprene para andar pelo rio.

O que levar

Vale muito a pena ter uma boa máquina fotográfica à mão. As noites podem ser estreladas como poucas vezes vemos na vida, além de ter muitos pássaros e alguns animais (mais jacarés e que fazem nos arrepender de não ter levado uma para fotografá-los.

Não deixe de levar uma boa lanterna, preferencialmente a que prende na cabeça. Filtro solar e chapéu fazem a diferença também. Se você, como eu, não nada muito bem e não se sente seguro em se jogar num rio com muitos metros abaixo dos seus pés, invista num colete salva-vidas. O que eles possuem são mais para uso de segurança do que para ficar brincando na água.

Conexão

O seu último instagram vai ser em Novo Airão antes de embarcar. Comunicação só por telefone público em 2 comunidades em que o Jacaré-Açu para. O barco conta também com comunicação via satélite para qualquer emergência, então relaxa!

Para matar o tempo

Leve um bom livro. Sabe aquele com 1.000 páginas que você não consegue terminar de ler? Manda bala que lá ele vai rolar. Se você, como eu, adora séries de TV, a viagem é uma boa oportunidade para colocá-las em dia. Joga tudo no computador, porque sobrará tempo para devorá-las. Música também é bem-vinda. Nós sempre buscávamos por trilhas sonoras para a viagem nos celulares alheios.

Crianças

Na nossa viagem tinham dois meninos, um de 8 e outro de 10 anos. Foi puro deleite para ambos, mas vale levar jogos e coisas para eles matarem o tempo nas longas horas de viagem, pois às vezes eles ficam bem entediados. Mas leve, a experiência é única e é uma sorte tremenda viver tal experiência tão jovem.

Tem luxo?

Depende muito do que é luxo para você. Se luxo for conforto, comer bem, ter um ótimo serviço à disposição, um quarto com cama, ar-condicionado e banheiro em meio à Amazônia. Sim, tem luxo e bastante.

Horários

Se você como eu treme só de pensar em cair da cama antes das 8h, prepara o coração, pois a sua rotina vai mudar. Não foi tão difícil quanto imaginei, mas meus horários mudaram completamente. Acordava geralmente antes das 6h30 e dormia por volta das 23h, fora os meus cochilos obrigatórios no meio da tarde. Não se preocupe, pois se eu me adaptei, qualquer um se adapta.

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Lalai Persson

Lalai Persson

Autora chez Viajando - Expedia Brasil
Lalai Persson é DJ e produziu festas por 5 anos em São Paulo, trabalhou por 10 anos com publicidade, é uma das co-fundadoras da agência Remix Social Ideas, além de ser curadora da área de música de eventos como youPIX e Campus Party. É blogueira desde o início de 2000 e em 2013 criou o Chicken or Pasta, site de lifestyle de viagens. Atualmente está na estrada sempre que possível.
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